Por Rafael Frydman
O artista plástico brasileiro Vik Muniz, nascido em São Paulo no ano de 1961, e radicado em Nova York desde 1983, é filho único de uma família de classe média paulistana e apresenta em suas obras referências à história da arte mediadas por metáforas e citações. “Minha preocupação é entender como as pessoas reconhecem essas obras, como elas as experimentam”.(Vik Muniz)
Trabalhando com diversos materiais e nas mais variadas escalas Vik, que iniciou sua carreira como escultor, encontrou na fotografia o suporte ideal para as suas experiências artísticas. É através da imagem técnica, produzida por meio de uma maquina, que ele as apresenta ao público e assim, acaba por criar um jogo em que uma obra vem dentro de outra.
Vik’, a maior retrospectiva do artista plástico e fotógrafo paulista, chega ao MASP – Museu de Arte de São Paulo, no dia 24 de abril, com 200 imagens que compõem as 131 obras da mostra, retoma diversos momentos da sua carreira revelando algumas das características mais marcantes desse artista que conquistou um lugar junto dos grandes nomes da arte contemporânea. Por meio de três obras presentes nessa retrospectivas pretendemos mostrar um pouco do que pode ser visto.
A primeira obra que apresentamos faz parte da série “Sugar Children” (Crianças de Açúcar) de 1996 e se chama “Valentina, the fastest”. Essa série reúne retratos recriados com açúcar de crianças que o artista conheceu no Caribe e cujos pais trabalham em canaviais. Nela o artista busca revelar através dos retratos das crianças um panorama de suas vidas e, dessa forma, destaca o tema de sua obra por meio da forma como a cria.
Ao utilizar o açúcar como material de confecção das imagens, Vik aborda a lógica social que envolve essas crianças. O açúcar produzido por seus pais, é num primeiro momento um espelho da pureza e doçura de suas feições e olhares. Porem em um momento posterior apresenta seu caráter passageiro e finito escancarando a perversidade da exploração a que seus pais são submetidos, e que se desenha como único futuro possível para essas crianças.
A não convencionalidade dos materiais aplicados as obras de Muniz não aludem a um caráter caleidoscópico onde a base é um jogo de cores. Não é a perfeição geométrica das sombras e proporções do açúcar sobre chapas imitando as imagens captadas que confere as suas obras características de criação; na verdade, a ação significadora começa a existir no instante em que as crianças são fotografadas no Caribe.
A efemeridade de um retrato recriado com açúcar é logo quebrada uma vez que o autor fotografa a obra para que ela seja exposta. Vik fotografou, primeiramente, a criança no Caribe. Em seu ateliê recriou a fotografia com açúcar e por fim fotografou essa imagem, chegando a sua obra final. Concluímos então que a criação desta obra se deu em três etapas, o que significa que o artista entrou três vezes no processo de produção de uma só obra.
Na segunda obra, “Double Mona Lisa, After Warhol (Peanut Butter and Jelly)” de 1999, temos mais uma vez um exercício de recriação. Diferentemente da obra anterior, o processo envolve a recriação de uma obra elaborada por outro artista. O famoso quadro de Leonardo Da Vinci, “Mona Lisa” é retomado por meio de uma mediação, e essa mediação se da por um terceiro.
Ao situar a sua releitura num momento “After Warhol” Vik trabalha com a idéia da reprodução, presente na obra “Double Mona Lisa” de Andy Warhol, ao mesmo tempo em que usufrui a liberdade adquirida pela arte por meio do movimento pop, utilizando mercadorias do nosso cotidiano, para propor uma re-produção, um dialogo sobre a reinvenção da arte. Nesse contexto de retomada de dois momentos distintos Vik cria um jogo entre a unicidade de cada uma das obras e a serialização do mesmo retrato.
A terceira obra se chama “Kitty” e pertence à série “Equivalents” de 1993. Assim como nas obras anteriores essa série se baseia em outra, também chamada “Equivalents” produzida pelo fotógrafo Alfred Stieglitz.
A série de Muniz, que retoma o nome e o tema da exposição do fotografo alemão, induz o publico a mesma percepção e sensação vivida diante da serie original. Porem enquanto Stieglitz apresenta fotos feitas de nuvens no céu, Vik apresenta fotos de esculturas feitas em algodão e fotografadas sobre um fundo azul.
Assim como Stieglitz, Vik brinca com o repertorio do público ao propor os títulos de cada foto de acordo com uma forma pictórica facilmente associável ao pedaço de algodão, retomando uma brincadeira corriqueira experimentada por muita gente em momentos de contemplação do céu. Como o próprio autor diz: “O artista faz só metade da obra, o observador faz o resto”.
O jogo, dessa vez, se da não só na forma como o repertorio individual e coletivo se manifesta na criação e observação da arte, mas também na possibilidade de mudar escalas e referentes por meio da fotografia.
Nesse momento é colocada diante do espectador uma nova questão. A questão da obra como totalidade. A aproximação do retrato torna possível a identificação do algodão e dos seus fios bem como o abandono da identificação da imagem como nuvem. Porem impede a visualização da composição total da imagem. Para recupera-la o afastamento necessário impõem um obstáculo. Ou vemos a obra por completo, ou vemos as características do material utilizado.
A fotografia, que para Walter Benjamin, representa a liberação da mão do artista, passando o olho a assumir o papel fundamental do processo de elaboração de imagens, quebra a relação de autenticidade e unicidade da obra de arte e inverte a lógica da originalidade.
Além de representar a possibilidade da reprodução técnica, infinita e mecânica e que elimina o aqui e o agora, a mediação entre obra e público por meio da foto representa o domínio do artista sobre o ângulo e a distância em que essa relação vai se dar. O olhar da objetiva possibilita ao artista destacar aspectos da obra que seriam invisíveis aos olhos humanos.
Da mesma forma a tradição, que percorre a origem, a duração material e o testemunho histórico da obra original, esse último dependente da sua materialidade, encontra na reprodução técnica um obstáculo: A troca da existência única pela existência serial.
O que é curioso é perceber que Vik não só não elimina o processo manual da arte, uma vez que produz o que será fotografado, como inverte o uso da máquina, tornando-a mecanismo de produção do original e não da copia. Seus originais, as fotografias, são passíveis de serem multiplicados, mas não o são.
Ainda nesse jogo Muniz trabalha com a materialidade da obra, na relação temporal da sua produção e não mais no contato com o público. O uso de materiais perecíveis, por exemplo, determina como o tempo e as condições ambientes agirão na imagem captada pelo filme fotográfico, ou maquina digital, enquanto a fotografia produzida não sofrerá ações dessa natureza ao ser vista pelo publico.
Vik Muniz – “Valentina, the Fastest”, 1996
Fotografia da série “Sugar children” 1996
Vik Muniz – “Double Mona Lisa, After Warhol (Peanut Butter and Jelly)”, 1999
Vik Muniz- “Kitty”, 1993
Fotografia da serie “Equivalents” 1993






















